quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Da simbologia do combate (about the sybology of the combat)



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Durante minhas conversas com Si Fu é comum falarmos sobre pessoas, como entendê-las e lidar com elas. Mais de uma vez o assunto recaiu sobre qual seria a grande diferença entre os seres humanos e outros animais; Si Fu diz que uma das características mais importantes, talvez a mais importante, para entendermos essa diferença é a capacidade humana de conferir símbolos. Essa capacidade consiste em atribuirmos um valor a algo que não seja o literal; e esse simbolismo está entremeado em nossas vidas. Simbólico é quando algo concreto representa uma ideia. Pessoas marcam jantares para poderem conversar, e não necessariamente saciar a fome. Nossas palavras são meros sons que atribuímos um significado.

A foto que abre essa postagem é de um filme chamado “The Grandmaster”, e nessa cena o mestre Gong Yutian tem como seu desafiante mestre Ip Man. A regra do desafio é clara: Gong Yutian tinha um biscoito em sua mão que deveria manter integro para vencer, caso fosse partido a vitória pertenceria a Ip Man. Essa cena é uma representação interessante do conceito de combate simbólico.

O combate simbólico é tão importante dentro do Ving Tsun pois ele é uma ideia que nos permite aprender através da experiência marcial; em quanto o combate real tem como objetivo a morte de alguém, é uma experiência de sobrevivência. No combate simbólico podemos experimentar premência de morte; ou seja vivenciar algo que de maneira simbólica tem potencial para nos fazer encarar a morte. Essa vivência tão intensa, derivada de uma premência de morte gera, uma condicionante para que desenvolvamos maior consciência sobre as coisas a nossa volta.





O sistema Ving Tsun tem como uma das suas ferramentas listagens de dispositivos corporais de combate simbólico. Tais dispositivos são maneiras de através do uso do corpo do próprio praticante ele possa vivenciar o combate simbólico. Na foto eu apareço realizando um dos primeiros dispositivos do Ving Tsun Experience.






Si Fu nos orienta sobre a importancia de entendermos como o combat simbolico funciona; é necessario um grau de refino para enteder quando, dentro de um combate simbólico, ocorre a morte. Caso um individuo não de a atenção devida durante a prática toda a experiencia terá um valoz reduzido, pois ao invés de vinvenciar diversos momentos de crise, premência de morte, o praticante estará apenas fazendo repetições de movimentos. Dentro do comabate simbólico podemos variar a intensidade, velocidade, nosso posicionamento e a distância de uma maneira que potencialize o estudo proposto.



Certa vez, em nossa comemoração ao final do ano de 2015, a conversa recaiu sobre algumas possibilidades de combate real. Todos se reuniram em torno do Si Fu para ouvi-lo falar sobre como o combate simbólico poderia influenciar nossa capacidade de lidar com o combate real. Como disse, o combate real é algo muito confuso logo não é um ambiente propício para o aprendizado em quanto o combate simbólico pode ter sua intensidade regulada para cada praticante permitindo que ele desenvolva uma percepção aguda do processo, gerando algo que chamamos de inteligência marcial. O que é inteligência marcial? Esse é o tema da próxima postagem!


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Primeiras Linhas (First Lines)



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Meu nome é Rodrigo Moreira, tenho 32 anos. Sou biólogo, já trabalhei como pesquisador, mas atualmente atuo como professor.
Meu contato com as artes marciais começou quando eu era bem jovem, com a idade de dez ou onze, e ao decorrer de todos esses anos tive experiências com algumas delas; mas foi somente no ano de 2014 que meu modo de pensar sobre - e encarar- as artes marciais mudou. Foi no dia 10 de maio de 2014 que eu aceitei ter como meu Si Fu(師父) o Mestre Sênior Julio Camacho, me tornando assim membro da família Moy Jo Lei Ou(梅祖利奧); do Clã Moy Yat Sang(梅 一 生); da linhagem Moy Yat(梅逸).

Aos 10 ou 11 anos eu comecei a praticar Judo, fui até os 15, e me deparei com um esporte que me identifiquei e apreciava; havia tentado varias práticas esportivas nessa época, mas nenhuma na qual eu conseguisse algum desempenho interessante. Um resumo, muito injusto, da minha experiencia no Judo: Um esporte que me proporcionou  autoconfiança, um bom preparo físico, bons companheiros, disciplina. Tudo isso que eu falei, e todas as outras coisas que eu ganhei no Judo, apesar de não mencionadas aqui, são de extrema importância, mas a minha visão da época me fez encarar como esporte apenas; eu me sentia um atleta.

Quando parei com o Judo tentei inúmeros outros esportes sem grande êxito; eu me divertia sem encontrar algo que me desse vontade de prosseguir com afinco. Próximo ao 18 anos tive minha primeira experiência com artes marciais chinesas, e comecei com duas; logo pensei que havia, finalmente encontrado algo no qual eu prosseguiria para o resto da minha vida. Nessa época eu começava a tentar ver nas artes marciais algo além do esporte, do preparo físico o do desempenho em competições; eu começava a buscar o que hoje eu chamo de "Vida Kung Fu" (Sam Faat 心法). Por acaso, ou não, foi justamente nessa época que tive meu primeiro contato com o Ving Tsun, e essa é uma historia para outra postagem, mas eu ainda não estava preparado para ver além. 

Os anos se passaram e acabei por interromper minhas práticas marciais. Não consegui encontrar incentivo suficiente,apesar de ser fisicamente ótimo  ainda ficava um buraco que eu não conseguia preencher; algo que eu buscava na arte marcial mas que me era elusivo, buscava algo que não sabia o que era. Mesmo com minhas atividade oficialmente interrompidas eu continuei, esporadicamente, a participar de algumas práticas, sendo delas as mais comuns as praticas de Ving Tsun, coordenadas por, na época apenas meu amigo e hoje um dos meus irmãos kung fu mais velhos ( Si Hing 师兄), Thiago Pereira, no bairro do Méier, na cidade do Rio de Janeiro.

Eu, de camisa azul e óculos, na celebração de aniversário de meu Si Hing Thiago. Foto de outubro de 2013.
Esse convívio com o Ving Tsun  me fez admirar a arte e seus conceitos inerentes, as metodologias aplicadas, e as pessoas envolvidas no processo; participei de muitas práticas, workshops, jantares e até mesmo cerimônias tradicionais da família Moy Jo Lei Ou. O intuito desse Blog é poder compartilhar alguns desses conceitos e metodologias que tanto me encantaram, mas antes de chegar nessa parte contarei mais um pedacinho da minha história.

Esquerda para direita: Julia, filha do Si Fu; Si Fu; Thales e Thiago, irmãos kung fu meus; eu.
Com esse convívio comecei a ouvir histórias de momentos como o da foto, aonde o Si Fu se reúne com seus alunos (To Dai 徒 弟) em momentos que não estão vinculados a prática, mas sim a convivência. Nessa foto eu já fazia parte da família Moy Jo Lei Ou, mas quando  comecei a ouvir essas histórias eu não conseguia ter dimensão desse tipo de relação; apesar de prestar muita atenção e de me admirar com o que me era contado, sobre como a relação com seu Si Fu pode ser importante e rica, eu jamais poderia mensurar como seria sentir essa relação. Ja ouvi,algumas vezes, de meu Si Fu, Mestre Julio Camacho, a seguinte frase: "Kung Fu não é passível de ser ensinado, mas pode ser aprendido."; e esse aprendizado não vem de conselhos sábios e frases clichês, mas sim da convivência. Aprendemos conforme nos permitimos vivenciar experiências junto com o Si Fu.

Mestre Navarro; Eu; Si Fu; Mestre Nataniel
O café da manhã, em uma mesa composta por mestres, em São Paulo, foi apenas uma das estapas durante minha viagem com Si Fu. Nessa viagem presenciei uma reunião do conselhos de mestres da Moy Yat Ving Tsun; só pude estar presente pois o nome do Si Fu abre muitas portas. Viver essa relação pode te levar a locais que nunca iria; no meu caso cheguei até mesmo a participar da gravação de uma série para tv, mas isso também é uma historia para outra postagem

Muitos dos meu amigos e conhecidos acabaram sabendo que eu pratiquei  artes marciais, e virou algo corriqueiro virem perguntar indicações de locais para praticar, para eles próprios ou terceiros, e eu, com muita frequência, indicava a Moy Yat Ving Tsun; mas eu mesmo não ia mais a fundo.
Em 2013 fui chamado pela minha grande amiga, e prima de consideração, Isabela para ser seu padrinho de casamento; coisa que aceitei com muita empolgação. Em uma das reuniões de padrinhos, batendo papo com o atual marido dela, Marcos Paulo, aquela pergunta apareceu: " Você indica algum lugar para eu praticar?". Falei para ele do Ving Tsun, e disse que havia um núcleo na barra da tijuca(RJ), local onde residia; ele adorou a ideia e me pediu para marcar uma visita. Naquela época a família Moy Jo Lei Ou tinha dois núcleos, um na barra -ainda está lá mas em outro endereço - e um no Méier, que hoje abriga a família Moy Fat Lei(梅 法 利); por proximidade da minha casa e por conhecer o responsável pelo núcleo, meu Si Hing Thiago Pereira, marquei a visita no Méier mesmo que ele viesse a praticar no núcleo Barra. Fomos a tal visita,  a metodologia nos foi apresentada , e eu fiquei bem animado quando ele disse que iria começar em janeiro do próximo ano, já que estávamos no fim de 2013. 

Logo no início de janeiro Marcos Paulo entra em contato comigo dizendo que infelizmente não poderia começar no Ving Tsun, e pediu que eu avisasse. Eu liguei para dar o aviso, e durante a minha conversa com meu irmão Kung Fu Thiago eu disse: "Quer saber, já que ele não irá, irei eu.". Não tinha planejado falar isso e não sei dizer o que me levou a dizer essa frase, mas o importante é que em fevereiro de 2014 iniciei o Ving Tsun Experience no núcleo Méier.



A família kung fu se reúne em torno do Si Fu. Eu, uma semana antes de ingressar no Ving Tsun Experience, e outros irmãos kung fu ouvindo Si Fu falar sobre o ano do cavalo que estava se iniciando.

No começo dessa postagem disse que entrei para a família em maio de 2014 e agora eu falo que iniciei o Ving Tsun Experience em fevereiro; são processos diferentes. A estrutura em que se organizam os praticantes de um sistema tradicional de kung fu é familiar;  O Si Fu é o líder da família, ocupando uma posição paternal, e seus To Dai são irmãos kung fu. Caso um ou mais dos To Dai se torne Si Fu, a sua família de origem se torna um clã.Tradicionalmente a entrada para uma família de kung fu se dá a partir de uma cerimonia chamada de Baai Si (拜師), aonde uma pessoa se compromete com seu Si Fu vitaliciamente, doravante o indivíduo terá somente aquele Si Fu; um compromisso tão perene pode ser um tanto alienígena para ocidentais, portanto, dentro do Clã Moy Yat Sang utilizamos dois artifícios: a entrada na família ser separada do Baai Si, que pode ocorrer posteriormente, e, antes da entrada para a família, o Ving Tsun Experience.

Na proxima postagem falarei um pouco sobre meu início no Ving Tsun Experience, e sobre uns dos conceitos que julgo mais interessante; o de combate simbólico. Conceito esse que sempre está presente nas práticas de Ving Tsun, e que aos poucos permeia a vida dos praticantes.